abril 16, 2004

Aqui, para governar, um safanão a tempo é quanto basta

A policia política (PIDE) e os métodos de obter informações (tortura) a todos aqueles que se opunham ao regime foram expoentes da governação Salazarista. Publica-se aqui um extracto de uma biografia de António de Oliveira Salazar (1889-1970). O pensamento de Salazar é colocado na primeira pessoa pela ficção de Fernando Correia da Silva. A política levada a cabo pelo pequeno “Grande Ditador” português, mergulhou o nosso país numa longa noite de quatro décadas. Objecto de contestação dos mais variados sectores, caiu pela acção do MFA, na madrugada de 25 de Abril de 1974.

«....Os grandes homens, os predestinados, os grandes chefes, não se embaraçam com preconceitos, com fórmulas, com preocupações de moral política. A violência pode ter vantagens mas não na nossa raça nem nos nossos hábitos. Em Portugal não há homens sistematicamente violentos. Aqui, há que governar tendo sempre em conta esse sentimentalismo doentio a que chamamos bondade. Para defender a Pátria, aqui não é preciso usar da violência. Um safanão a tempo é quanto basta.

Nas revistas e nos jornais e nas emissoras radiofónicas e nos teatros e nos cinemas, o lápis azul e a tesoura da Censura prévia cortam os textos e as imagens fora de prumo, há regras a cumprir, safanão a tempo. Nas livrarias, a polícia apreende os livros subversivos, há regras a cumprir, safanão a tempo.
Se abandonados à liberdade, os homens logo se convertem em libertinos. Reforço a proibição das greves e em 1933 fundo a PVDE - Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. Agentes italianos e depois uns alemães, com as suas técnicas, virão ajudar-nos a torná-la mais eficaz. Rapidamente a PVDE estende uma rede de informadores de norte a sul da Nação, nas cidades, nas vilas e até em aldeias. É fácil, muita gente ambiciona ganhar mais uns tostões.

A função primeira da PVDE é prevenir as tentações de libertinagem, é intimidar não só os ímpios e os incautos à beira da impiedade, mas também os respectivos pais, e cônjuge, e filhos, e irmãos, e colegas, e amigos, todos os que estejam em perigo de contágio. Subversão é peste, há que meter a Nação em quarentena. E meto, mas alguns escapam, danados que tentam danar os outros, cães raivosos.
Reorganizo as forças militarizadas, a GNR - Guarda Nacional Republicana, a PSP - Polícia de Segurança Pública, e a Guarda Fiscal. E chamo ao meu gabinete, primeiro o Agostinho Lourenço, director da PVDE; mais tarde o Silva Pais, director da PIDE. Alerto:
- Mais vale um safanão a tempo do que deixar o Diabo à solta no meio do povo.

Contam-me como fazem. Localizam onde pousa um dos suspeitos. A meio da noite arrombam a porta, dão-lhe voz de prisão e uns sopapos, arrastam-no para a sede, interrogatório, safanão primeiro. Se o subversivo conta o que sabe, é porque já está a caminho da salvação. Se não fala, safanão segundo, espancamento. Se calado continua, safanão terceiro, é a penitência da estátua, dias e noites obrigado a ficar sempre de pé, até que as suas pernas se transformem em dois trambolhos. Variante do terceiro safanão é a penitência do sono, dias e noites sem dormir; quando cabeceia, logo acendem um holofote contra os seus olhos. Um dos possessos, ao fim de quinze dias e quinze noites sem dormir, começou a beijar a parede, alucinações, pensava que estava na cama com a mulher. Depois entrou em coma. Normalmente, depois do terceiro safanão, os inconfessos entram em coma. Ninguém os mata, eles é que se deixam morrer porque se negam à salvação.

Alguns sobrevivem ao terceiro safanão, mas nada mais podemos fazer por eles, almas penadas já são em vida. Com ou sem julgamento são despejados em masmorras. Em 1936 inauguro as colónias penais do Tarrafal e de Peniche. É no Tarrafal que vai morrer Bento Gonçalves, secretário do Partido Comunista. Outros seguem-lhe o exemplo; no Tarrafal e em Peniche, no Aljube e em Caxias.

Não, não é preciso usar da violência, somos um povo de brandos costumes. Aqui, para governar, um safanão a tempo é quanto basta....»

Publicado por vmar em abril 16, 2004 08:42 PM
Comentários

Um interessante exercício de narrativa, bem fundamentada, que doi mais por sabermos que foi verdade e que aconteceu connosco e que ainda assim alguns querem fazer esquecer.

Afixado por: Pedro Lima em abril 16, 2004 09:25 PM

Quem as passou não as esquece.
Nem que só tenha visto uma prisão e um assalto a uma casa a meio da noite.

Há muitas mentes que dizem que foram sonhos... raio de sonhos reais que eram pesadelos!

Afixado por: M. em abril 16, 2004 09:57 PM

A dor fisica, era para muitos, muito menos insuportável, do que a dor psicológica.
Relatos há, de quem às portas do "inferno", ainda teria forças para sorrir, chorando interiormente

Afixado por: jgonçalves em abril 16, 2004 10:55 PM

Pois é, foi esse o mal. Termos sido um povo de brandos costumes e não se terem responsabilizado todos os PIDES que embora estivessem a cumprir ordens, a maior parte das vezes actuavam por sua livre iniciativa. De resto em matéria de sevícias
aplicadas aos presos politicos a responsabilidade era exclusivamente sua e faltou
pagarem por isso.

Afixado por: congeminações em abril 17, 2004 06:15 PM

Cumprir ordens quando estão em causa valores fundamentais como a vida e a liberdade é pactuar com esses ideais e com essa maneira de estar no mundo.
Na maior parte das vezes essa de “cumprir ordens” não passa de uma desculpa de cobardia.
É que assumir atitudes integras exige muito sacrifício e determinação.

Afixado por: vmar em abril 18, 2004 05:01 PM

POIS FALTOU FAZER JUSTIÇA,MAS OLHEM QUE ELES ANDAM AI NO MEIO DE NOS E AQUI TAMBEM

Afixado por: antonietapaulo em maio 12, 2004 11:00 AM